*Por Jamil Mouallem

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo interessante e desafiador. Ao mesmo tempo em que alcança recordes históricos de produção, passa a depender cada vez mais de variáveis que fogem ao controle direto do produtor: o clima e a energia. Nesse cenário, produtividade já não é apenas resultado de tecnologia ou gestão, mas da capacidade de equilibrar um novo tripé estratégico.

Os números recentes ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2025, o Brasil atingiu uma safra recorde de 346,1 milhões de toneladas de grãos, um crescimento de 18,2% em relação ao ano anterior, segundo o IBGE. Mais do que volume, o dado revela um avanço estrutural: o país mais que dobrou sua produção em pouco mais de uma década, impulsionado principalmente por ganhos de produtividade e não apenas pela expansão de área.

Mas esse crescimento não é linear nem garantido. Para 2026, a previsão já indica uma leve retração de 1,8% na produção, reflexo direto de variáveis climáticas e do desempenho de culturas sensíveis como milho e arroz. Em paralelo, dados da Conab – Companhia Nacional de Abastecimento – mostram que eventos extremos, como estiagens, ondas de calor e irregularidade de chuvas, já impactam diretamente a produtividade, com quedas de rendimento em diferentes culturas.

É nesse ponto que o clima deixa de ser pano de fundo e passa a ocupar o centro da estratégia agrícola. Não se trata mais apenas de prever safras, mas de lidar com uma variabilidade crescente. O produtor moderno precisa operar quase como um gestor de risco climático, integrando dados, tecnologia e planejamento para reduzir incertezas. E é aqui também que entra o terceiro elemento, muitas vezes subestimado: a energia.

A agricultura contemporânea é intensiva em energia em praticamente todas as etapas, da irrigação à armazenagem, da mecanização à conectividade no campo. Em um ambiente de clima mais instável, essa dependência se torna ainda mais crítica. Sistemas de irrigação precisam operar com precisão em períodos de seca, estruturas de armazenagem demandam estabilidade para evitar perdas e tecnologias digitais exigem fornecimento contínuo para garantir monitoramento e tomada de decisão em tempo real.

Na prática, isso significa que produtividade hoje não é apenas uma equação agronômica, mas também energética. O resultado é uma mudança silenciosa, porém profunda. O agronegócio brasileiro começa a migrar de um modelo baseado em expansão e escala

para outro baseado em resiliência e eficiência integrada. Produzir mais já não basta, é preciso produzir com previsibilidade, mesmo em cenários adversos.

Essa transição abre espaço para uma nova lógica de investimento. Tecnologias que aumentam a eficiência energética, soluções que garantem continuidade operacional e sistemas que protegem a infraestrutura produtiva deixam de ser custo e passam a ser ativos estratégicos. Afinal, em um ambiente onde uma falha pode significar perdas relevantes, estabilidade virou sinônimo de competitividade.

O Brasil continua sendo uma potência agroglobal, mas o jogo está mudando. O futuro do setor não será definido apenas por quem planta mais, mas por quem consegue equilibrar melhor esse novo tripé: energia, clima e produtividade.

E, como toda boa safra, esse equilíbrio não acontece por acaso. Ele é planejado, construído e, cada vez mais, protegido.

*Jamil Mouallem é sócio-diretor da TS Shara indústria nacional fabricante de nobreaks, inversores e estabilizadores de tensão e protetores de rede inteligente.

Foto capa by estadao.com.br

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