Os títulos “A Herança de Narcisa”, “A Fabulosa Máquina do Tempo” e “Feito Pipa” passaram por festivais mundo afora, entre eles o 28º Festival de Xangai, um dos principais da Ásia

Lázaro Ramos e Yuri Gomes em “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton | Crédito: Jamille Queiroz
O público brasileiro poderá conferir três dos nove filmes brasileiros que ganharam destaque no circuito internacional de festivais ao serem selecionados para a Mostra de Cinema Brasileiro, parte das iniciativas do Ano Cultural Brasil-China 2026, que integrou a programação do Festival Internacional de Cinema de Xangai – SIFF. A Herança de Narcisa, terror estrelado por Paolla Oliveira, com direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias, já está em cartaz nos cinemas. Já A Fabulosa Máquina do Tempo, novo documentário de Eliza Capai, e o drama Feito Pipa, com Lázaro Ramos e dirigido por Allan Deberton, chegam às salas brasileiras respectivamente em 30 de julho e 24 de setembro deste ano.

A HERANÇA DE NARCISA
Considerado o primeiro trabalho de Oliveira no cinema de horror, o longa aborda temas como vivência feminina e trauma familiar por meio da relação da protagonista Ana com sua mãe Narcisa, uma ex-vedete já falecida. Mesclando o suspense psicológico, o sobrenatural e o drama familiar, a trama acompanha a personagem principal, que, após perder a mãe, decide vender a casa onde cresceu, mas é obrigada a confrontar as memórias do passado quando começa a ser assombrada pela matriarca.

A produção teve sua estreia no 27º Festival do Rio, onde conquistou o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem na mostra Première Brasil: Novos Rumos. Também selecionado para integrar a iniciativa brasileira na China, o filme foi representado por Paolla Oliveira e os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias na comitiva brasileira que foi à Ásia para as celebrações do Festival de Xangai.  Segundo Appelt, a reação do público chinês ao longa foi “emotiva e muito bonita”, demonstrando a capacidade da arte de alcançar “plateias de culturas tão diferentes”. Ela conta que tal recepção não se limitou apenas a A Herança de Narcisa, também tendo presenciado respostas calorosas a outras histórias brasileiras. “É muito importante o intercâmbio cultural com o mundo todo, mas com a China, especialmente, esse contato e essa troca cultural foram muito ricas”, finaliza.


A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO
Em seu novo trabalho, a documentarista Eliza Capai volta a abordar temas recorrentes em sua obra, como desigualdade social e questões de gênero. Premiado no Cine PE e no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, o longa dá voz a um grupo de meninas que vivenciam o fim da infância e a chegada da adolescência em Guaribas, no sertão do Piauí, escolhida em 2003 como cidade piloto do Programa Fome Zero por ter o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país na época. Hoje, Capai acompanha o crescimento de suas protagonistas, enquanto elas brincam entre o passado difícil de suas mães e a possibilidade de imaginar um futuro para elas mesmas.

O filme teve sua estreia mundial na Mostra Generation do Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), além de ter sido selecionado para o É Tudo Verdade e para a Mostra de Cinema Brasileiro no SIFF. Para a produtora Mariana Genescá, que representou o documentário na exibição na China, é em experiências como essas “que vemos, na prática, como a arte e o cinema têm o poder de encurtar distâncias, desfazer fronteiras e de nos conectar através da essência máxima do que é ser humano”. Segundo Genescá, a audiência chinesa recebeu A Fabulosa Máquina do Tempo de forma calorosa, comparecendo em peso para a sessão-debate, que teve os ingressos esgotados. Para ela, a participação do público, com perguntas pertinentes e curiosas, demonstrou “como eles tinham entendido muito bem o filme, em todas as suas camadas e complexidades”.


FEITO PIPA
A trama dirigida por Allan Deberton, aborda temas como memória e aceitação ao acompanhar Gugu, um garoto queer, criado de forma livre pela avó Dilma nas proximidades da Barragem de Araújo Lima. A tranquilidade da vida que levam juntos passa a ser ameaçada quando a seca revela as ruínas de uma antiga cidade e, junto delas, o estado de saúde de sua avó, o que pode obrigá-lo a morar com o pai, Batista, com quem tem uma relação turbulenta. Protagonizado pelo jovem ator Yuri Gomes, ao lado de Lázaro Ramos e Teca Pereira, o longa foi premiado no Festival de Guadalajara, Festival de Cartagena e Festival de Berlim, onde conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional.

Já no Festival de Xangai, a produção se destacou ao ser duplamente selecionada, participando tanto da Mostra Brasileira quanto da Mostra Belt and Road Film Week. Sobre a experiência, Deberton conta que foi “bonito perceber que as diferenças culturais não impediram a conexão com o protagonista e sua trajetória”, pelo contrário, “o jeito de ser de Gugu, a situação de sua família e do lugar onde vive parecem ter despertado curiosidade e identificação”“Essa é uma das maiores forças do cinema: apresentar um universo particular e, ao mesmo tempo, revelar emoções que podem ser compreendidas em qualquer parte do mundo”, conclui o diretor.

Além dos títulos, também participaram da Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai: Papaya, de Priscilla Kellen; A Hora da Estrela, de Suzana Amaral; Amadeo e o Hipotético Mundo Novo, de Brenda Lígia e Edu Felistoque; Para Vigo me Voy!, de Lírio Ferreira e Karen Harley; O Deserto de Luiza, de Alan Minas; e Coração das Trevas, de Rogério Nunes, que está previsto para ser lançado ainda em 2026.
A Plataforma Brasil de Audiovisual é uma realização do Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Ministério do Turismo (MTur), a Funarte, a Embratur, o Sebrae, o Instituto Guimarães Rosa, o Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Embaixada do Brasil em Pequim. O projeto tem patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Petrobras e da Caixa Econômica Federal, com produção executiva da Quitanda Soluções Criativas e do Instituto Ibero Culturas e cooperação da UNESCO.

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