• Técnica de fermentação de precisão é capaz de produzir a mesma matéria-prima extraída da pele dos jumentos e atender à demanda da China pelo produto, sem ameaçar a espécie 
  • Usado na indústria de beleza, saúde e nutrição funcional chinesa, o colágeno de jumentos abastece um mercado de US$ 700 milhões/ ano naquele país
  • Laboratório brasileiro espera captar US$ 2 milhões para iniciar produção em escala já em 2027

Com conclusão prevista para este ano, pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolvem um método inédito de produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão, que dispensa o abate de animais. No final de 2025, a pesquisa já havia concluído as primeiras etapas laboratoriais e entra agora na reta final, com o avanço, até o fim deste ano, no sentido de apresentar a viabilidade técnica do processo produtivo. Para o processo de escalonamento inicial – etapa em que a tecnologia deixa a bancada e passa a ser testada em biorreatores de 10 e 50 litros –, o projeto busca US$ 2 milhões para investir em uma infraestrutura robusta, capaz de viabilizar a produção de escala do colágeno de jumento.

A fermentação de precisão consiste em utilizar micro-organismos geneticamente modificados para produzir proteínas específicas de origem animal. No caso da pesquisa da UFPR, a proteína de interesse é o colágeno do jumento, amplamente utilizado pela indústria chinesa na produção do ejiao, uma gelatina utilizada pela medicina tradicional do país, a partir da pele do animal. Impulsionado pela alta demanda na indústria de beleza, saúde e nutrição funcional, o mercado de ejiao é avaliado hoje em US$ 1,9 bilhão, com projeção para alcançar US$ 3,8 bilhões até 2032 – um crescimento anual de 9,1% neste período.

Neste segundo ano do projeto, os pesquisadores farão a inserção do DNA responsável pela produção do colágeno de jumento em um micro-organismo, que passará a atuar como uma biofábrica. A partir dessa etapa, será possível avançar para o processo de escalonamento inicial da produção.

“Já avançamos nas etapas mais complexas do ponto de vista científico, que são justamente as de bancada, onde está a inovação. Agora estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, em um processo semelhante ao da produção de cerveja”, explica Carla, PhD pela Universidade McGill, no Canadá, e coordenadora do Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR.

O projeto é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e pela Fundação Araucária, SETI, Governo do Estado do Paraná. Também conta com uma parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em biotecnologia para produção de proteínas alimentares alternativas ao uso de animais.

“Queremos comparar o DNA do jumento brasileiro com as sequências internacionais para garantir uma descrição precisa do produto. Isso é fundamental pensando em uma futura aplicação comercial”, explica Molento. A meta é apresentar, até dezembro de 2026, a chamada prova de conceito: a produção de miligramas de colágeno de jumento obtido integralmente por fermentação de precisão, comprovando que a tecnologia é viável.

Segundo a pesquisadora, apesar de as quantidades iniciais ainda serem pequenas, os resultados já são considerados altamente promissores. As três primeiras etapas, que envolvem o sequenciamento do DNA, sua amplificação e preparação, já foram cumpridas com sucesso.

Necessidade de financiamento adicional – Apesar dos avanços científicos já alcançados, o projeto busca recursos para a etapa de escalonamento. Para testar a produção do colágeno em biorreatores de maior capacidade, a equipe estima a necessidade de cerca de US$ 2 milhões em novos investimentos. Sem esse aporte, a pesquisa permanece restrita à prova de conceito, o que limita a validação do processo em condições mais próximas das exigidas pela indústria e adia a possibilidade de transferência da tecnologia para o mercado.

“Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de prova de conceito. Para avançar rumo a uma aplicação industrial, precisamos de financiamento para instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, destaca Molento.

De acordo com a pesquisadora, esse financiamento pode vir tanto de fontes públicas quanto privadas, incluindo empresas interessadas, organizações internacionais ou nacionais.

Além do impacto científico, a pesquisa abre caminho para uma alternativa econômica e ambientalmente mais eficiente em relação ao modelo atual de produção de colágeno de jumento. Hoje, o processo depende do abate dos animais, que enfrenta problemas éticos e de sustentabilidade ambiental e econômica. Com a produção em escala do colágeno de jumento, outros produtos de origem animal poderão ser desenvolvidos a partir da mesma tecnologia, que entrega proteínas animais verdadeiras sem a necessidade de criação e abate de animais, e com um impacto ambiental mais baixo que a produção animal convencional.

“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, explica a pesquisadora.

Outro diferencial é que o colágeno produzido em laboratório é altamente purificado, o que facilita sua comercialização no modelo B2B, modelo de negócio onde uma empresa vende produtos ou serviços para outras empresas. “A estratégia mais provável é vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, afirma Carla. Para ela, o colágeno de jumento pode funcionar como uma “porta de entrada” à consolidação das proteínas alternativas no setor de produção animal.

Salvação da espécie – Além de gerar ganhos milionários com a venda de colágeno para a China, a produção em biorreatores pode contribuir para salvar os jumentos da extinção. Dados da FAO, do IBGE e do Agrostat mostram que a população desses animais no Brasil despencou 94% entre 1996 e 2024. “De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, PhD em Ciências, com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, e coordenadora da organização no Brasil.

O abate ocorre de forma extrativista, não movimenta a economia local e beneficia apenas dois abatedouros em funcionamento no interior da Bahia. Trata-se de uma atividade que contraria dados técnicos e científicos já produzidos e divulgados no Brasil.

 

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